Rio Doce, lama amarga e as bombas em Paris.

 

Hoje vivemos em uma época insana. Uma época assustadora. Uma época onde ataques de bomba – que acontecem diariamente em certos lugares e ninguém dispensa muita atenção – ainda assustam mais que um desastre ambiental que afetará a vida de todo o nosso planeta em uma proporção gigantesca.

Rio Doce, a mais importante bacia hidrográfica na Região Sudeste. Margens que antes eram território de Botocudos, Pataxós e Crenaques. Rio que um dia fora uma da ultimas trincheiras de resistência contra o invasor português. Rio dos Tucunarés, Curimbatás, Cascudos e Lambaris-bocarra. Águas que guardavam os mistérios das Minas Gerais. Rio que nasceu do encontro do Ipiranga com Do Carmo, antes Xopotó escorrendo nas serras do Espinhaço e da Mantiqueira, morre agora, tristemente, afogado na sujeira da corrupção.

Paris, o berço da civilização ocidental. A imagem mais bem-acabada do Ocidente que os radicais islâmicos tanto detestam. A Cidade Luz.
Pois bem, a França entrou na coalizão de países que combate o Estado Islâmico. Jogou bombas contra os islamitas na Síria no dia 27 de setembro. Depois, caças franceses destruíram um centro de treinamento do EI no leste, e nos últimos dias, mais caças destruíram um centro de distribuição de petróleo deles na Síria, uma das mais importantes fontes de renda do grupo. A França escolheu lutar por uma causa. Paris – em toda sua pobreza e fragilidade em meio aos reis da Europa -deveria imaginar quem, afinal, pagaria essa conta.

Vale e Samarco. As responsáveis pela pior tragédia da história do Estado de Minas Gerais. Irresponsabilidade, omissão, falta de planejamento, não fiscalização, entre tantas outras coisas absurdas. Quilômetros e mais quilômetros de destruição. Peixes, tartarugas, aves e pessoas. Todos sem futuro. Todos presos na lama que contamina cabeça, pulmão, sangue e alma.
A morte não foi bruta e em grande escala tal qual nos ataques terroristas, mas será infinitamente maior, se arrastando lenta e dolorosamente por muitos e muitos anos, levando consigo a dignidade dos homens de bem e deixando pra trás o rastro sórdido da sujeira dos nossos governantes. Sempre nos lembrando, esfregando em nossas caras o quanto nossas vidas valem pouco quando comparadas à sacos de dinheiro.

O estrago foi feito. Isso não é uma simulação. Isso não é coisa da oposição.
O desastre em Mariana é muito pior do que tentam nos enfiar goela abaixo, e o pior de tudo é que tem gente demais que engole qualquer coisa, muita gente que se convence facilmente com qualquer explicação leviana. E agora estão a dizer que a Samarco vai pagar 1 bilhão e tudo vai ficar bem. Não, não vai.

A França precisa de ajuda, como Serra Leoa, Congo, Nepal, Iraque e Síria, Norte e Nordeste do Brasil e outros tantos. Sim, todos precisam de compaixão em suas desgraças, concordo que todos tem de ser ajudados, mas assistir aos principais meios de comunicação(manipulação?) de meu país fazendo alarde com direito à lágrimas em rede nacional pelos franceses enquanto uma parte importantíssima de nossa pátria morre é patético, pra dizer o minimo.

O Brasil é referencia em água no mundo – “Águas, são muitas, infindas”, já disse Pedro Vaz de Caminha quando aqui chegou. E aqui está a maior bacia hidrográfica do planeta – Amazônica. No entanto não parece ser muito importante a morte de tantas espécies. Parece irrelevante contaminarmos um dos maiores rios da Terra. Parece bobagem esse rastro tóxico chegar até o mar. Tudo bem, nós temos mesmo muitos e muitos anos pra viver na frente de um computador enquanto morre tudo aquilo que a lama contaminou.

Pense. As bombas sempre irão continuar. É coisa do homem. Mas a água, a água quando acaba seca o chão. E sem chão vai-se o mundo. Vai eu, você e todos estes políticos de merda… Vão-se todos.

Yasmin Oliveira,
17.11.2015

Anúncios

Desculpas ínfimas de um poeta latente.

DSC_3370

Perdoem-me os beijos que se foram
E os gostos que se desfizeram.
Perdoem-me as fotos que não foram tiradas
Dos rostos estranhos que passaram.
Perdoem-me os risos desfeitos
Pelas passagens compradas.
Perdoem-me os amigos
Os irmãos
As paixões
Os amores
Por vezes mal aproveitados.

Perdoem-me as casas que ficaram
Pelo caminho, assim, abandonadas.
Perdoem-me os marinheiros
Pelo mar não desbravado… ainda.
Perdoem-me as tantas camas
Levianamente usadas.
Perdoem-me os sentimentos
Os temores
As angustias
Os problemas
Por tanta atenção dispensada.

Perdoem-me as estrelas,
Por não serem toda noite admiradas.
Perdoem-me os poetas,
Pelas poesias não amadas.
Perdoem-me as multidões,
Pela reclusão tão desejada.
Perdoem-me as palavras
As musicas
As flores
As pessoas
Que não foram – com gosto – apreciadas.

Perdoe-me a solidão,
Que nem sempre tem a gratidão merecida
Pela poesia que abranda o coração.

Yasmin Oliveira.
27.06.2014

Das coisas do meu coração

O cheiro que as manhãs de inverno têm.
O cheiro que algumas pessoas têm em todas as manhãs.
A dança solitária na cozinha,
E o desejo que um par de olhos caísse sobre ela,
E que outras mãos me tirassem para dançar.
Pijamas. Chinelos. Bom dia.

O cheiro que as chuvas de verão têm.
O gosto que algumas pessoas têm no verão.
O chão gelado da sala,
E o desejo de mais um corpo ali além do meu,
E mais outro riso causado pelas cócegas.
Calor. Beijos. E preguiça.

O cheiro que meu coração vazio não tem.
A curiosidade de saber um pouco mais sobre um outro coração.
A solidão das noites infinitas,
E o desejo de ter com quem contar as minhas estrelas,
E ter outros olhos que pudessem me ver.
Assim. Bem assim. Só assim.

Yasmin Oliveira
07.06.14

E eu seria eu se assim não fosse?

Photo by Yas Oliver
Photo by Yas Oliver

Tu dize-me que sou afoito
Sem médio-longo prazo
Pressa em dobro.
Sempre meio-muito afobado

Logo digo que assim sou
Em partes e pedaços
Jogo-me fora da gaveta
Sem caprichos ou não-espaços

Tu dize-me o quão sou belo
Sem mas ou poréns
Quando sorrio meu riso-frouxo
Afim de lhe mordiscar meu bem

E digo-lhe que lhe mordo mesmo!
Sem cara nem vergonha
Mordo-lhe ate o dedo mindinho
A mim tua quase-fuga não engana

Falemos então os dois!
Que esteja tudo errado
Ou por hora ornamentado
O que mais importa senão o amor?

E ei de dizer sempre e sempre
Que bela és a TUA companhia
Sem eira, nem beira em MEU caminho
E que sem-migo ao teu lado jamais caminha.

Que sejam defeitos,
improbabilidades ou formosuras!
Os efeitos que causo-carrego
São feitos na base da minha moldura.
Da nossa loucura.
Da tua gostosura.

E assim sou,
E gosto de ser
Pois se assim não fosse,
Eu não seria eu,
Eu seria outro,
Seria louco,
E jamais te amaria.

Yasmin Oliveira.
20.06.2014

A triplicidade de 6 em um ano 6.

Photo by Yas Oliver
Photo by Yas Oliver

E então eu espero vocês chegarem
Com suas cores que brilham nos meus sonhos.

Dourados que refletem.
Vermelhos que pulsam.
Amarelos que irradiam.
Cinzas que não existem
E azuis que me empurram rumo ao céu.

Mas vocês não chegam.
Não nascem.
Não me livram desta prisão.

E eu ainda espero.
Eu ainda choro sozinha.
E eu ainda sonho com vocês.

Por que ninguém pode entender.
Ninguém pode fazer por mim.
Ninguém pode enxugar as lágrimas.
E ninguém pode me ouvir,
Nem expulsar essa estranheza aqui de dentro.
Ninguém além de eu e vocês.

Então me digam,
Quando é que vocês nascem?
E quando é que vocês chegam?
Quando é que vocês me salvam?
Quando, digam-me…
Quando?

Por que eu ainda estou aqui,

Yasmin Oliveira.

Queime depois de ler

Photo by Yas Oliver
Photo by Yas Oliver

Eu queimo quando te leio
Porque quando te leio sinto fome de você
Sinto fome dos teus beijos
E cobiça das tuas mãos
Quando te leio arrepio a nuca
Tensiono as coxas, faminta.
Me molho, me afogo, me mordo.
Quando te leio eu te devoro.
Devoro em pensamento.
Pensamentos extremamente obscenos.
Porque a tua escrita me excita
Me exalta, fascina e embriaga.
Ela se enrosca nas minhas entranhas
E me pega pela nuca
Para gemer ao pé do ouvido.
A tua escrita me intriga,
Pois és tão diminuto em tempo
E tão extenso no papel.
Você arde na folha em branco
E me faz arder ao te seguir.
Sim, por que meus olhos agora te seguem.
É com eles que eu te desvendo
E te folhear assim me castiga,
Porque te ler é o que me provoca
Me instiga sua ousadia.
Na ponta do lápis você ferve
Você fere, rabisca e lambuza
Com as palavras você é devasso, carnal, lascivo
Da forma mais natural que se possa ser.
Nas suas escritas você nasce libertino,
E é por isso que quando te leio eu queimo
Eu queimo de vontades e de prazeres
E me arrisco a exibir a minha tara pelas tuas mãos que escrevem,
Pelas mesmas mãos que hão de ainda me tocar.
E então me arrisco a redigir alguns dos meus não-pudores
Me arrisco a tecer qualquer coisa que me liberte,
Para que você possa me ler assim
Safada e gostosa feito ti.
Para que você possa me ler assim,
Cheio de vontades a me decifrar,
Pois só faz poesia quem sabe trepar.

Yasmin Oliveira.

Uma promessa de amor.

E você me prometeu que sempre estaria por aqui.
Você me prometeu um mundo de amor.
Me prometeu o mundo inteiro sem dizer palavra.
E mesmo não estando, você está.
E mesmo não me tocando, me enche de amor.
Você sempre cumpre suas promessas,
Você sempre está a me amar.
É você que me sustenta,
Me ilumina,
Me carrega,
Me transborda,
Noite e dia,
Tempestade ou vendaval.
Você aceita o meu pior,
Exaltando o melhor de mim.
E de toda a vida, toda coisa existente por aí,
Nada se compara a você em todo nosso amor.
Nada se compara, jamais.

Yasmin Oliveira.